Sexo, Amor & Crônicas

TEIMOSIA

 teimosia


Como essa sala parece vazia. Assim como minha vida nesse momento. Não repara, não, Dinho, não faz essa cara, juro que não estou louca. Bom, quase isso, estou aqui desabafando com meu cachorro. Pelo menos ele me entende. Preciso de um cigarro! Putz, acabei de lembrar que não fumo.
 
Incrível como a cabeça da gente manda no corpo. Devo estar há uns 40 minutos imóvel nesse sofá, olhando pro nada, tentando entender o que aconteceu. Algo me diz que não dava mais, que não tem mais jeito, mas por que, Meu Deus, a gente insiste? Sabe aquele olhar turvo, perdido, com ausência de raciocínio? Acho que estou vivendo assim há algum tempo.
 
A gente vai se enganando, tolerando, entendendo. Sendo burra, na real. Não enxerga porque não quer. Chega uma hora que desiste de brigar. É um cansaço emocional. Fadiga do amor próprio. Eu me entrego demais, simplesmente porque não sei ser diferente. Ligo pra saber como ele tá, o que comeu, o que vai fazer hoje e recebo respostas com sintomas de displicência. Cansei de ser mãe, babá e mulher de alguém que não é homem. O pior é que, quanto mais me importo, mais o afasto. Ás vezes a gente precisa de um choque pra acordar. Por que tão burra? Hein, Dinho, responde!?
 
Preciso beber! Não tem nada em casa. Não quero sair. Vou pedir uma tele. Não estou com fome. Na verdade, estou até um pouco enjoada. E essa chuva também não ajuda. Podia cair um raio na minha cabeça agora pra ver se melhora.
 
Me atiro no sofá de novo. Chega uma hora em que o rosto cansa de chorar. A dor é tanta que seca as lágrimas da alma. Duas da manhã, horário chave para as principais decisões da minha vida amorosa. Sempre lembro de olhar pro relógio nessa hora. Deve ser porque até a minha consciência já foi dormir. Sou um perigo na madrugada.
 
Toca o interfone! Dinho, meu beagle, se esconde no quarto. Que inveja. Nem me surpreendo, mas não quero acreditar que seja ele na porta. Não quero abrir, mas quero entender.  O que ele veio fazer aqui essa hora? Deve ser falta de sexo, só pode. Não posso ceder, não posso ceder, não posso ceder! Grito para o espelho e a única resposta que ouço é: “arruma o cabelo e limpa esses olhos borrados”. Ok, tenho que encarar o meu medo de mim mesma.
 
Claro que eu perdoei. Ainda não estou preparada para seguir sozinha. Se fiz o certo só o tempo vai dizer, blá, blá, blá. Nem eu acredito mais nessa minha ladainha de dar mais uma chance ao meu destino. Acho que ele tenta me dizer o caminho e eu insisto pela trilha errada. Tudo bem, nada foi fácil pra mim mesmo. E eu sou mulher o suficiente para arcar com as consequências. Dinho me olha com reprovação, mas imediatamente me consola abaixando as orelhas. Tá, eu sei, Dinho.  Talvez um dia eu aprenda a discernir persistência de teimosia.
 
Recebo uma mensagem no Whatshapp: “Precisamos conversar”. Olha aí o destino tentando decidir a minha vida por mim, mais uma vez.
 
Vem, Dinho, vamos dar uma volta antes de anoitecer. Será mais uma longa noite.

Um comentário no “TEIMOSIA

Deixe uma resposta