Sexo, Amor & Crônicas

TARDE DEMAIS

 

Não aguento mais o frio do teu olhar. Te vejo de costas e percebo teu choro, tua alma sangrando um amor que terminou antes de começar. Terminou? Não consigo aceitar. Onde estão nossas noites mal dormidas, aquelas bem aproveitadas que nos faziam tão bem? Nossos cafés de encontro no meio do trabalho, disfarçando a vontade ao colocar açúcar; demonstrando paixão no calor do líquido descendo a garganta. E aqueles beijos de café nos corredores, escondidos de todos, como um alimento pro meu dia? Minha boca sente fome da tua.
Ao te ver linda e produzida em cima de um “salto autoestima” na manhã seguinte, meu peito ensaiou um suspiro que não saiu. Ficou preso, como eu estou agora nas tuas mãos, após diversas artimanhas sedutoras, malignas eu diria, de cozinhar pra mim e me fazer massagens nos pés enquanto reclamávamos do mundo, das pessoas, do tempo que não para. Teu figurino preto, sóbrio, combinando com teus cabelos, exalava segurança, mas teus olhos choravam secos. A frieza congelou tuas lágrimas.
Teu braço me puxando pra um canto na manhã seguinte e com um sorriso de lado, indulgente, me trouxe a falsa ilusão de que aquela noite não aconteceu. Respondi com um olhar de esperança, mas a mágoa não sofre de amnésia. Era apenas para entregar o meu desodorante esquecido no teu banheiro, como um souvenir da nossa história. Foi o golpe final, implacável. Segurei o tubo nas mãos tentando decifrar o que eu sentia. Lembrei dos bilhetinhos do banheiro, colados no espelho, com todo o GPS da tua casa, local das chaves e como passar o café. Sempre assinados com tua marca de batom, um desenho da tua boca, que hoje se tornou nada mais do que uma lembrança. E o pior de tudo é que sou responsável. Teu sentimento amadureceu antes que o meu e foi preciso te ver de costas para me dar conta o quanto te quero. Tarde demais.
Foram 5 meses destruídos em 4 horas. A massa esquentando no fogão, o chão gelado daquela cozinha, tuas palavras rudes e a garrafa do Casa Perini Marselan indo embora junto com o que restou de nós. O vinho é romântico, reflexivo, até ajuda nas decisões amorosas, mas naquele dia estava analfabeto e me fez rodar no teste.

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