Café das Segundas, Sexo, Amor & Crônicas

SOZINHA E DAÍ?

 

SOZINHA

Chego em casa e fico com dó só de pensar em tirar essa maquiagem, desfazer o cabelo e despir sozinha esse vestido. Deixa eu me olhar no espelho mais uma vez. Selfie. Sento na varanda, acendo meu cigarro imaginário e pego mais uma  Stella da geladeira. Faço um Snap, dou uma stalkeada nos boys. Outra selfie. Não tem jeito, preciso me desmontar.

Retiro os cílios postiços em frente ao espelho da minha suíte enquanto penso na minha vida. Fecho os olhos pra esfregar o demaquilante e tento me imaginar numa posição diferente da que estou. Olho pra trás e me dou conta que dessa vez não tem um bofe ali deitado. Ou estaria dormindo, ou me esperando pra transar e o pior é que as duas situações me irritariam. Tenho medo dessa minha intimidade com a solidão.

Com uma alça do vestido já no braço, sento na cama e arranco as meias. Canso. Olho pro quarto à meia luz, pra televisão desligada, para o quadro da Frida Kahlo na parede e meu dia seguinte começa a surgir na minha mente como uma agenda escalonada. Pegar minha mãe, shopping, almoço com a irmã e um date no final do dia. Me pergunto se lavei a roupa e se a casa está levemente ajeitada caso eu decida trazê-lo pra cá e dar pra ele. Acordo do pensamento e ligo uma música no Spotify. John Mayer, seu lindo.

Caminho só de calcinha pela casa, pego uma coca-cola bem gelada, tomo no bico e me jogo no sofá olhando pra lua. Gosto tanto da minha companhia que não sei se tem espaço pra três nessa relação. Adoro a liberdade de me divertir comigo mesma – ou com quem quiser – e depois voltar pra mim. Isso pode me custar caro, mas o que posso fazer se sou feliz assim?

Ligo meu seriado favorito. Tô cansada, mas ainda meio ligada pra pegar no sono. Eu deveria tomar um banho, troquei o lençol essa semana. Quer saber? Vou dormir aqui no sofá, foda-se! Um doce. Fecho os olhos mastigando e me encontro com a felicidade por alguns segundos.

Talvez essa vida tenha um prazo de validade, mas eu não me importo. Não há como me decepcionar comigo mesma. O duro é ficar ouvindo perguntas do tipo: “como está o seu coração?”

– Tá batendo, eu respondo. E eu ando muito bem acompanhada, obrigada.

Convenção social, casamentos, filhos, o escambau. As pessoas dizem que você só pode ser feliz com isso. E pode mesmo, mas ninguém te ensina a viver consigo. Sou feliz com meus livros, minhas pinturas e meus problemas. Ninguém sabe melhor dos meus traumas do que eu. Homem pra que? Trocar a resistência do chuveiro e instalar o home theather? Ah, eu sou bem mulher pra fazer isso. Sexo? Só digitar duas palavras no celular e pronto.

Um dia eu acho que vou cansar disso tudo, mas posso falar? Acho que vai demorar. Ainda bem que minha única pressa é de viver.

Fiquei torta no sofá e voltei pra cama. Abracei o travesseiro e nessa hora, somente nessa hora, bateu uma vontadezinha daquele cheiro masculino, daquele abraço pra me adormecer.

Tudo bem, nem tudo é perfeito mesmo né. Deixa eu dormir que amanhã tenho um encontro. Quem sabe isso não muda.

Sozinha, mas jamais infeliz.

Vídeo:

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