Amor

SEGUNDO ENCONTRO

Poucas coisas são mais constrangedoras do que a dúvida do segundo encontro. Como agir quando a gente se ver? Beijo na bochecha ou na boca?

Talvez na testa.

Não, muito paternal.

Se estamos frente a frente no dia seguinte, certamente é porque há uma vontade mútua de estar junto.

Será?

Na primeira vez fomos ao cinema, mas como o filme era ótimo o beijo só rolou no carro voltando pra casa. Sabe aquela suspirada antes de pegar no trinco?!

“Então tá né…”

Pode beijar.

Quando a garota não quer, ela não cede esse espaço, não permite qualquer pausa que possa ser aproveitada por nós reles seres masculinos inábeis na arte da conquista. É uma brecha consciente para nos fazer pensar que decidimos as coisas em algum momento.

Tolo eu. Tolos nós.

Aconteceu.

Da próxima vez vou escolher aquela película francesa com legenda em que niguém precisa prestar atenção e a sala estará vazia. Aí a gente beija por duas horas. Valerá mais a pena!

No meio disso tudo, aquela conversa por sinais, olhares furtivos entre uma pipoca e outra, observando o movimento dos lábios e escutando o milho explodindo em contato com os dentes.

Ao final, poucas palavras. Primeiro estávamos prestando atenção no James Bond e depois em silêncio, de olho fechados, apenas preocupados em beijar. O papo ficou mesmo para o whatszapp.

Se marcássemos um novo encontro tipo um café, um barzinho à noite, ou um filme do Netflix lá em casa, acho que eu saberia como agir. A última opção então é tipo aquele acordo velado de que vamos transar. Você não precisa falar com todas as letras, mas está implícito. Se o convite ainda conter um vinho numa sexta à noite, talvez vocês estejam destinados a passar o primeiro fim de semana juntinhos.

É extremamente complicado interromper a sequência sexo-filme-comida-sono-sexo, não necessariamente nessa ordem.

Mas voltemos à realidade: não era o caso.

Trabalhamos juntos, ou seja, nos encontramos diariamente em outro cenário, com outras pessoas. Como chegar no dia seguinte e agir despretensiosamente? Como ignorar nossos olhares que entregam tudo o que fizemos poucas horas antes?

Era como se estranhássemos nossas bocas separadas.

Tudo bem, ali era fácil agir profissionalmente pois o ambiente exigia. Mas e depois? Aquela carona marota na saída, uma conversa esquisita falando sobre o clima, o chefe mala, ou o irmão que tá indo viajar, a dieta dessa semana e até o cenário político que a gente tenta entender e não consegue.

Tudo pra não tocar no assunto da noite passada.

A gente fica lá dando voltas até perceber a chance para beijar de novo, tentando decifrar qualquer vulnerabilidade para se entregar também.

CARAMBA, QUE DIFÍCIL!

Esse negócio de deixar rolar é bacana, mas na hora é impossível não questionar, saber a hora certa, falar aquilo que soe inteligente e maduro. Sempre queremos causar uma boa impressão. A gente se preocupa, não sabe nem o que sente ainda, como vai ser, mas acredito que essa insegurança no passo pode ser um bom caminho. Não houvesse cuidado, não haveria importância. Faz parte da destrambelhada arte de se apaixonar.

Quer saber? Acho que nunca vou saber como agir no segundo encontro.

Talvez isso seja bom.