Sexo, Amor & Crônicas

RETRATOS

Fotos que contam uma história. Imagens que retratam uma felicidade congelada. Paisagens que me devolvem a um tempo distante. Consigo ouvir a trilha sonora daqueles dias, além do perfume doce que ela usava. Preciso organizar as minhas coisas, minhas memórias. Lembranças são tudo que tenho, mas não me sinto triste com isso.
 
Analisar fragmentos de uma relação é uma forma de superar o que passou. Nem sempre estamos preparados e este é o verdadeiro teste para seguirmos em frente. Podemos sorrir com os bilhetinhos guardados naquela caixinha, escondida em cima do roupeiro, ou então ficar alguns minutos observando aquele cartão postal que você mandou quando fez aquela viagem para a Portugal e ficamos um mês separados. É preciso maturidade emocional para entender a saudade. Nem sempre a saudade é sentir falta de uma outra pessoa. Por vezes, saudade é sentir falta de si mesmo.
 
A gente percebe que supera quando ri, quando sente falta, mas entende que tudo aconteceu no tempo certo, que o destino agiu no seu curso normal e nos separou a tempo de buscarmos a felicidade, porém separados um do outro. Respeitar as lições do tempo é o primeiro passo para evoluirmos sentimentalmente.
 
Procurar vestígios e relembrar momentos são manobras extremamente necessárias. Fugir do passado nos deixa presos pra sempre. São as contradições da vida. É preciso reviver lembranças, para guardá-las sem resquícios.
 
Aquele sorriso, que me deu tantas alegrias, hoje deve estar feliz em algum outro retrato. A carta, escrita à mão, delicada como as mãos dela, me provocou gargalhadas, ao lembrar de como éramos tolos, juvenis e acreditávamos na ingenuidade de um sentimento genuíno. E como isso nos ensinou.
 
Bom, fiz duas viagens para carregar o elevador com tantas caixas, lotadas de fotos, cartazes, bilhetes, tickets de estacionamento, passagens de avião, Cds antigos e até recibos de cartão de crédito gastos em jantares. Se precisamos consultar nosso equilíbrio emocional, relembrando cada detalhe de uma história que terminou há quase dois anos, também é verdade que não podemos permanecer com isso. Somos carentes por natureza e é natural recorrermos às memórias do corpo, da mente.
 
A porta do elevador estava quase fechando, quando surgiu uma mão feminina, forte, porém esguia, de dedos longos e com destaque para um anel dourado. A porta foi se abrindo e mostrando a silhueta de uma bela moça. Cabelos longos e claros, uma jovialidade madura e um ar simpático, que me questionou:
 
– Quantas caixas! Está de mudança?
– Sim, estou mudando, respondi.
 
Olhei para as minhas lembranças, abri um sorriso meio de lado para ela, que me devolveu um olhar de aprovação e percebi o quanto eu precisava viver uma nova história. Precisava de novos retratos.

Um comentário no “RETRATOS

  1. Gostei. Texto corajoso este seu. Acompanho você todos os dias na hora do almoço na Band. Sou sua fã. Não sabia que escrevia também. Foi uma agradável surpresa. Desculpe, mas acho que a intitulação de "safadinho" não lhe cabe. Pelo menos ao que me parece, pelo que li aqui. Parabéns!

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