Sexo, Amor & Crônicas

RECALQUE

recalquePor onde andas? Por onde caminhas? Por onde voas? Difícil essa adaptação ao término. Me convencer que não sou mais o motivo do teu raro sorriso é mais doído do que a saudade consentida da tua presença. Antes eu podia sentir tua falta, chorar pela ausência, perseguir teu olhar como meu prêmio mensal, tal como um salário que garantia o meu sustento emocional. Como é duro descobrir que não me pertences mais; que eu não te pertenço, que não sou mais teu, se é que algum dia, de fato, fui. Hoje me dou conta que meu ciúme não era de ti, mas da ligação imaginária que eu criei contigo. Busquei ser “o cara” para você. Sabe aquele “cara”? E esse não foi meu erro. Foi teu, minha cara. Esbarrei meus cortejos e romantismos do século 19 na tua parede egocêntrica e narcísica dos teus gestos. A minha indignação é o mais puro recalque da tua beleza que me fere só de pensar. Tua geografia me incomoda de tão perfeita. Tenho ciúme dos teus cabelos negros, como um manto que me aquecia no frio da vontade, da tua tez morena e macia, tão cheirosa que, para mim, o planeta deveria ter esse aroma. Eu respiraria eternamente você.

Sempre quis estar nas tuas palavras, nas tuas letras de música e nada me satisfazia, pois o amor que eu te dava sempre faltou em mim. Para onde ia meu sentimento, ele ficava pra sempre e nunca mais retornava. De todas as flores que eu te dei, nenhum espinho me feriu mais do que o teu desprezo capricorniano. Mesmo assim continuo te observando, de longe, aliás como sempre estive. Longe. Distante dos teus braços, dos teus olhos, do teu corpo e do teu coração.

Eu tentei estar perto, ser próximo, parecer tenro, aquecer teus vícios, alimentar tuas manias, matar a sede do teu fogo, mas apenas dupliquei tua individualidade e o máximo que consegui foi ficar só. Ausente do amor que eu presenciei sozinho, carente da solidão que eu acalentava com a nossa desunião, triste como vão teus olhos atrás de quem não te ama. Alguém que nunca vai te cortejar como eu fazia com meus devaneios cobertos de chocolates nostálgicos de Páscoa, ou cheios de brilhos como as minhas surpresas inesperadas. Ninguém vai te velar como eu fazia com meus braços em volta de ti, deitados como se o mundo se resumisse aos próximos minutos. Meu nariz na tua orelha conseguia descrever um êxtase que meus sentidos jamais vão me perdoar e por isso me cobram noturnamente a falta daquele cheiro de alegria. Não terás mais todas as loucuras perfumadas das 96 rosas que te mandei em 17 meses de uma paixão veloz como um Boeing, carregado de bagagens com sonhos não-realizáveis e que eu fiz questão de transforma-los possíveis.

Pegue o ticket da liberdade e brade para o ar aquela letra do Los Hermanos, aquele trecho da Martha Medeiros que você adora, aquela frase de “Sex and the City” e finja que se convence com essa falsa independência feminina. Você está presa em si mesma, nas tuas vontades, no teu muro de pós-conceitos, de garota pós moderna do tipo “eu sou pra casar, mas não quero”. Volte para a sua prisão, com cada tijolo de uma argamassa infantil e pueril que só você é capaz de desenhar. Vá construir tua saída para a vida que sempre quis, que nunca te quis e que você insiste em viver. Bons ventos a levam. Pra bem longe do teu coração sempre distante. O meu agradece.

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