Sexo, Amor & Crônicas

RECAÍDAS

 

O processo de esquecer quem amamos é demorado. Dolorido. Mas o pior de tudo é saber que não há garantias para alcançar tal objetivo. Na verdade a sensação é de que nunca vamos conseguir retirar da memória aquele cheiro familiar, aquela risada gostosa e até mesmo os defeitos que tanto incomodavam. Detalhes perturbadores que insistem em nos acompanhar e que agora fazem falta na casa vazia.
 
Seguimos em frente, levantamos a cabeça e encontramos em outros corpos a autoestima perdida. Voltamos a sorrir, quase gargalhar em alguns momentos. Namoramos com a ilusão de que esquecemos. Superamos, talvez. É uma forma de vencer a dor, enfrentar o medo de pertencer àquela ausência devastadora. Recriamos momentos e nos reencontramos com uma inquieta alegria. Fugaz, efêmera, como toda a felicidade.
 
O problema é que nesse período de redenção, enfrentamos momentos de turbulência emocional. São as chamadas recaídas. Inevitáveis, incontroláveis, traiçoeiras. Não esperamos, não queremos, mas não há como conter. Uma foto perdida no celular, uma canção que o rádio insiste em tocar, ou aquele programa de TV que perdeu completamente a graça sem a companhia dela. Sem falar na caneca lascadinha na ponta, como um fragmento da nossa história.
 
O importante nessas horas é você tentar resistir. Afaste-se do álcool como primeira medida. Os dedos nervosos irão procurar o número dela para mandar uma mensagem, ou um áudio no whatsapp de madrugada, com aquela voz de sono, bêbado, dizendo que você apenas está com saudade. Não faça isso. Se beber, não digite!
 
Os sentimentos jamais devem ser sufocados e é preciso sempre dizer que ama, mesmo quando não se é correspondido. No entanto, se a relação acabou, foi por algum motivo. Lembre-se disso. Poderá ter sido uma fase ruim, algo que ficou pendente e que tenha deixado a porta aberta para o retorno ao lar, mas nunca espere por isso. A indefinição é companheira da frustração e esperar por alguém que não vai voltar é praticamente deixar de viver, se entregar para uma decepção em que você é responsável. Nunca coloque o seu sorriso como dependente da atitude do outro. É o primeiro passo para você chorar.
 
A recaída é sorrateira. Não esperamos, mas ela vem. Sempre vem. É verdade que vai diminuindo a frequência, mas não há como negar. O que muda é a forma como lidamos com ela. Procurar não é o melhor caminho. Se você quiser fazer isso, faça longe de uma recaída. Em algum lapso racional, para que a conversa seja franca, o mais distante possível dos sentimentos. E das bebidas. Tudo para você poder compreender o que aconteceu. Nesse caso há chances de voltar, mas será preciso um entendimento além da emoção provocada pelo término. Será necessário encontrar uma maturidade que não estava ali até então. Se ela surgir, aproveite a oportunidade. Tentar resgatar um amor é prova maior de que ele ainda não se foi. Embora, infelizmente, apenas amor nunca seja o suficiente.
 
As recaídas acontecem para nos provar que somos falíveis. Que tomamos decisões pensadas e esquecemos que o coração não raciocina. Nos afastamos de quem amamos por não conseguir conviver com determinadas situações, ou porque temos o nosso destino interrompido pela ausência do sentimento do nosso ser amado. Dói. Fisicamente. E por mais que tentemos seguir adiante, o peito avisa que algo importante não foi deixado para trás. Reconheça esse amor, encare essa dor como parte de si, afogue as mágoas em qualquer copo etílico e de preferência longe do celular.
 
Perceba que oscilar sorrisos e lágrimas faz parte da recuperação da nossa estabilidade emocional. Essa tal maturidade vai chegar, mas por enquanto aprenda a lidar com as recaídas.
 
E sem digitar…

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