Amor

O FIM

 

A ficha não cai na hora, naquela frase ouvida e não assimilada que acabou. Parece uma pausa do tempo, o mundo silencia, o corpo entra em choque e o coração para de bater. Gela a espinha, a saliva não desce, tudo trava, inclusive o raciocínio.

Como assim?

Por vezes conseguimos a frieza de agir com naturalidade destroçados por dentro, concordando com tudo apenas para abreviar aquele instante, pois quanto mais rápido finalizarmos aquela cena, logo estaremos no quarto colocando pra fora toda dor.

– Claro, depois eu passo aqui pra pegar as minhas coisas, vamos falando – complemento com tranquilidade.

O andar é mecânico, a respiração apertada, o olho lacrimeja e na verdade nem sabemos explicar tais reações. Não foi possível refletir a respeito, mas o corpo já se manifesta. Cruzamos a porta de saída e nem percebemos que ali atravessamos um portal para outra dimensão, para uma nova vida que se inicia a partir de então.

Olho para os dois lados da rua e fico em dúvida sobre qual caminho devo seguir. Pego o celular, tento chamar um transporte no aplicativo, mas não sei qual endereço colocar. Estou sem rumo.

Saio andando, enxugando as lágrimas que congelam meu rosto com o vento frio aqui fora. Tudo parece novo, o clima, a estação, a perspectiva. Até que começo a me dar conta do que realmente aconteceu.

Quando a razão vai forçando a barra buscando seu espaço nessa luta árdua com a emoção vamos tentando achar um sentido pra tudo isso. Muitas vezes não há. Houve desgaste, falta de sentimento, sintonia zero, pouca afinidade após um tempo, objetivos distintos, vontades aleatórias que já não andam mais juntas. É preciso seguir em frente. A gente já sabia, sempre sabe, mas protela porque não quer assumir a responsabilidade de tomar decisões. Às vezes é preciso para mudar aquilo que não está bom, que não nos faz bem.

A construção da felicidade exige que alguns ajustes sejam feitos pelo caminho.

Pode ser supresa também, claro, quando recebemos a notícia indesejada e no auge do amor. O choque é maior e somos tomados por uma insegurança de dar o próximo passo sozinhos. Nessa hora se tivéssemos a capacidade de conversar com a gente mesmo num futuro breve, ouviríamos sábios conselhos de que há um oceano de novidades a serem descobertas. Passada a fase de luto, recomeçamos a viver, mas é duro entender isso nas primeiras semanas, onde a nossa convivência desconhece a vida singular.

Sinto falta do apartamento que foi meu, do edredon que me cobria no sofá, dos filhos da prima dela, da forma como ela fazia o café, da vista da varanda, do açougueiro que já me conhecia, da calçada em frente ao prédio trincada com o peso do botijão de gás, do pôr do sol da janela, do vizinho gente boa com quem sempre trocava ideias sobre futebol, daquele pijama que ficou lá e nem quis buscar. Da minha paciência com tuas manias. Saudade de mim.

Sou outro.

Felizmente nos transformamos, modificamos nossa personalidade sem perder a essência do que sinto, do que entendo certo, mas é fato que não sou a mesma pessoa. Nem deveria. Nem gostaria.

Demora um pouco para assimilar o golpe, mas logo a gente se levanta e vejam só, depois de algumas quedas nem preciso conversar com meu “eu” do futuro para saber que em breve estarei feliz.

É maturidade que fala né? Não sei, mas descobri que você não muda o que outro pensa, muito menos interfere no que o outro age. Então resolvi fazer por mim, torcer por mim e viver por mim.

Não sem dor, mas acho que está dando certo.