Quarta do Sofá, Sexo, Amor & Crônicas

MUDANÇAS

 
Enquanto tomo essa cerveja alemã, amarga, porém cremosa, fico pensando como eu mudei desde que a gente se conheceu. Eu mal gostava de destilados. Ficava tonta com um gole de caipirinha. E isso foi só uma das coisas que você modificou em mim. Fiquei um pouco mais exigente com a vida e certamente meu paladar ficou mas aguçado. É complicado provar o amargo, depois de conhecer o sabor da felicidade.
 
Quando nos relacionamos com alguém, passamos a viver o mundo desta pessoa. O certo seria misturarmos tudo, as vivências, as lições, as preferências. Ensinar ao outro aquilo que aprendemos ao longo da vida e nos abrirmos para novas experiências. O problema é que, às vezes, a personalidade de um fala mais alto e sempre se sobressai na relação. Os mundos se dividem para viverem uma vida apenas.
 
Na primeira vez que saímos, ele me levou em um resturante árabe. Eu falei pra ele do meu curso de italiano, das minhas histórias da nona e como foi conhecer Florença. Ele tem a mania de comer com guardanapo no colo. Eu não consigo. Ele não paga os 10 por cento. Eu faço questão. É natural as pessoas serem diferentes e as divergências até que são bonitinhas no início, mas chega uma hora em que alguém tem que ceder.
 
Eu não gosto de corridas de carro, mas ele é aficcionado. Eu ia para agradá-lo. E era um ritual, não bastava ver quem ganhou e ponto. Íamos para a casa dos pais dele no domingo, tomávamos um super café da manhã reforçado e saíamos de comboio até o autódromo. Depois eu acabava me divertindo, até fiquei craque decorando o nome dos pilotos. Durante a prova, aquele sorriso rasgado me provocava um riso fácil e a certeza de que ele me completava.
 
Sim, quem cedeu fui eu. Ele era ciumento e não gostava de ir à festas. Por mais que eu adorasse sair com as amigas, comecei a evitar. Quando me dei conta, saía uma vez por mês, voltava pra casa antes das duas da manhã e ainda tinha de conviver com aquela cara fechada. Me afastei dos amigos, das minhas vontades, até da minha família. Mudei de vida na minha própria existência e abandonei a mim mesma.
 
Foi então que ele me deixou. Não bastasse a dor da perda, tive que secar minhas lágrimas e ainda regressar para o meu mundo. Voltar a me adaptar a uma rotina que deixei pra trás. Reconquistar amizades, minha irmã e meu desejo de viver. É duro perceber que me apaixonei por alguém e esqueci de mim. E foi justamente por isso que não deu certo. Eu não oferecia nenhuma novidade pra ele. Me tornei apenas uma companhia, perdi minha essência e a capacidade de proporcionar novas descobertas. Eu fui cúmplice da minha própria derrota. Me entreguei e perdi. Me perdi.

 

 
Voltei às aulas de italiano, já marquei passagem pra Machu Pichu com um grupo de amigas e hoje à noite vou me acabar dançando. Pelo menos fiquei com a herança de um gosto apurado. A cerveja, a predileção por filmes franceses, textos de Charles Bukowski, tudo aprendi com ele. Isso agora também faz parte do meu mundo e dele eu não vou abrir mão. 
 
Bora recomeçar! Estou voltando pra mm.

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