Sexo, Amor & Crônicas

MOBÍLIA

 

Mais difícil do que superar a ausência de alguém que foi embora, é entender que a aquela pessoa residirá por muito tempo em cada parte do fio que uniu a relação. Todos os pilares da nossa história desmoronaram, mas a mobília permanece intacta e registrada com as nossas impressões digitais. E emocionais.

A primeira medida que tomei foi sair de casa, me afastar daquilo que eu chamava de lar, além do teu corpo. Procurei um apartamento menor, para que coubesse nele apenas a minha desilusão. Precisava ficar longe de tudo que me devolvesse pra ela, para o que nós construímos juntos. Só esqueci que pensamento é incontrolável e o coração não escolhe moradia para fugir de casa.

Passei uma semana como se estivesse numa cínica de reabilitação, me desintoxicando do teu cheiro e das tuas manias. Minha pele apresentava um calafrio repentino, estranhando a falta de calor das tuas coxas. Não há como esquecer, a gente simplesmente faz um esforço para não lembrar e, para isso, é preciso se esconder praticamente de tudo. Se um amigo em comum telefona, não sabemos o que dizer, pois fatalmente ele perguntará por ela. Se uma música toca no rádio ou em algum videoclipe na TV, imediatamente pensamos em desistir de viver. Dormir é complicado, pois o travesseiro questiona o ninho vazio. Despertar é muito pior, pois temos o dia inteiro pela frente. O jeito é seguir em frente, mas desviando das pedras em forma de lembranças pelo caminho.

O dia mais complicado foi quando precisei voltar para a casa onde morávamos, para buscar alguns pertences. Ela me confirmou que estaria trabalhando e que eu poderia entrar à vontade. Parei o carro em frente ao prédio, como fizera tantas outras vezes, porém desta vez como uma visita – de certa forma indesejada. Fiz aquele trajeto com um certo constrangimento, cumprimentando funcionários e vizinhos do local. Mas o pior aconteceu quando entrei no apartamento.

Estava tudo igual. Igual como eu deixei. O sofá que compramos juntos, à prestação, seguia ali. O aparador ao lado da porta mantinha aquele ar vintage e o tapete da sala continuava enrugando logo que a gente pisava nele. Entrei no quarto, me sentei sobre a cama, liguei a tv (como fiz muitas vezes) e não aguentei. Chorei com força, expulsando toda a lágrima que teimou em não sair desde que terminamos. Não era por falta dela. Era uma saudade de mim.

Percebi que, ao deixar aquela casa, aquela relação, eu estava dando Adeus para uma vida inteira. Precisava me despedir de toda aquela mobília, que parecia me observar e se despedir de mim também. Abri as portas dos roupeiros de forma insana, para ver pela última vez as cobertas, travesseiros e o edredon azul claro. Usei o banheiro e fitei o espelho por alguns minutos. Fui até a cozinha, abri a geladeira, comi uma fatia de bolo e observei a vista, através da área de serviço. Peguei um whisky na prateleira, me atirei na poltrona onde costumava ler meus livros, acendi um cigarro imaginário e deixei meu corpo repousar. Decidi que naquele momento, mente e coração precisavam se entender. A partir de então, eu saberia o que fazer quando saísse dali.

Por mais dolorido que tenha sido, tudo aquilo me renovou. Precisamos nos despedir da mobília para começar uma nova mudança. Tudo aquilo que nos unia nunca deixará de existir, mas aos poucos você substitui por novidades. É preciso buscar novos ares, novas canções, novos móveis. O desapego também é material, afinal carregamos nossas emoções em cada objeto fundamental da nossa rotina.

Ao sair de casa para uma nova história, não se esqueça: Diga Adeus para a sua mobília também.

Um comentário no “MOBÍLIA

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *