Sexo, Amor & Crônicas

FRIO

 

frio
Que o vento soprando lá fora não me escute. Esse frio me dá uma saudade do teu corpo quente. Aliás, teu fogo sempre foi meu remédio para madrugadas geladas. Daquelas noites em que o amor se encolhe, se esconde e só o calor dos corpos resiste. Ainda me lembro do crepitar da tua alma inflamando os lençóis, do vinho como testemunha, aliás, como cúmplice. Sim, cometemos alguns crimes. O maior deles? Foi se apaixonar. Nosso contrato epidérmico não previa cláusulas de sentimentos.
 
Em dias assim, o que o termômetro marca nas ruas se torna inversamente proporcional à minha saudade. O frio tem teu cheiro. Sentir a brisa das ruas vazias é como inalar teu perfume e o olfato é o sentido da memória.
 
A virada de uma estação é como um álbum de fotos. A cada página, uma lembrança diferente. Chego a sentir na boca a adstringência causada pelo tanino do vinho que adorávamos degustar, do paladar aguçado pelo teu gosto de liberdade. E sinto, mais até do que gostaria, os efeitos que teu corpo deixou no meu. Marcas de uma queimadura interna, que não exibe cicatriz, mas que arde toda vez que penso em ti. A ironia é que isso acontece sempre que o tempo esfria.
 
O jeito é caminhar por aí, sentir o gelo endurecer meu rosto. Talvez a mistura do verde das árvores com o azul do céu me console. O sol, apesar de distante, ameniza o sofrimento e é o único calor que me resta agora. Ah, já ia me esquecendo, esse amanhecer também me lembra o clima hostil da nossa despedida e o maior frio que já senti na vida: o do teu olhar.
 
Vou ali desabafar com o vento e já volto.

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