Amor

Baunilha e morango

O gole do whisky acalma, mas desce amargo. Arrebata a cabeça para o coração parar de doer. Fuga dos pensamentos para depois sonhar com você. Que doce ilusão é tentar te esquecer.

Já me adaptei à nova mobília. Falta me acostumar com a ausência do teu cheiro. O baunilha do creme pós-banho, o splash de morango corporal que embalava meu sono antes de dormir. Meus lençóis tem cheiro de nada. Minha vida está incolor, insípida e inodora. Estou em liquidez. 

Busco respostas em cada caminhada ao ar livre, nos livros que retiro da estante como um velho amigo a quem peço conselhos. Esbarro na parede da culpa, da consciência de saber o que causei, ciente das minhas responsabilidades, da precisão dos meus erros. 

Eu a quero de volta, mas preciso fazê-la entender que as lições do tempo são para nós dois. Que os novos ares estão me fazendo bem, assim como espero que a ela também. É possível seguirmos em frente juntos, porém apenas de alma. Agora estamos de corpos separados, cada um com sua missão. Pode ser que a gente se encontre ali na frente. Hoje, o trajeto é singular. Talvez em paralelo.

Meu cigarro imaginário vai terminando aqui nessa janela pro horizonte. Sinto cheiro da terra molhada após a chuva de verão e lembro das nossas tardes contando as luzes dos prédios se acendendo. Que saudade da minha vida ao teu lado. 

O tempo vai ensinar se a vontade de estar perto será maior do que a dor da ausência. Se eu for falar por mim, já não suporto a falta da baunilha e do morango no meu travesseiro. O que dirá do cheiro da tua pele.

Anoiteceu. O jeito é sonhar com teus aromas.