Sexo, Amor & Crônicas

BANHEIRA

BANHEIRA

A vida é engraçada, quase nunca combina com as nossas vontades. Não pretendia estar aqui onde estou, mas também não posso dizer que ando infeliz. Tudo é uma questão de perspectiva. Cheguei em casa e daria meu mundo por uma banheira. Tudo bem, não posso reclamar, meu apê me conforta. Não é exatamente grande, mas o suficiente pra guardar minhas frustrações. Pelo menos essas velas no banheiro criam um clima. Vamos lá, Adele, você sempre me entende. Água quente, pelando, queimando a pele enquanto Adele rasga a voz no aplicativo pra me consolar. Sem banheira, sento no box e deixo a água cair. É o momento em que todas as minhas dúvidas escorrem pelo ralo.

Eu não queria estar com você, eu sei que a gente não dá certo mas dava pra respeitar meu tempo, poxa?! Para de esfregar o que você sente por ela nessa rede social, usando as mesmas palavras, as mesmas canções, a mesma foto no carro, felizes pela nova estrada. E eu aqui, perdida no meu caminho. Não triste, mas desorientada, sabe? Porra, Adele, responde! Ah, não “Someone like you” nessa hora é pra foder!

Não tô triste ou chateada, mas é inevitável olhar pra esses azulejos e pensar como teria sido. E se a gente insistisse? Será que era apenas uma turbulência? Não, a verdade é que eu tô muito bem sem você. Esses 20 minutos aqui no banho iriam me custar alguns gritos falando que eu tô demorando e que você quer comer alguma coisa. Ou pior, você nem notaria minha ausência e eu saria do chuveiro esperando que você me contasse do seu dia ou então questionasse o que eu tenho. Às vezes eu só queria poder desabafar, mas encontrava uma sala vazia com você no sofá olhando televisão preocupado apenas com o filme da sua vida.

É surreal, sinto falta do que poderíamos ter tido, da ilusão que eu criei, da vida que morreu quando fui embora. A música lenta e o barulho das gotas no meu rosto me dizem que o tempo vai consertar esse meu quebra-cabeça sentimental. Putz, como eu queria uma banheira agora. Meus dedos estão murchos e a minha bunda dormente. Hora de levantar dessa preguiça emocional.

Abro um vinho, olho pela varanda. Frio lá fora. Mudaram as estações, realmente. Eu podia estar com você, podia estar em outra cidade, numa outra vida, mas a verdade é que já tive tudo isso e o destino me trouxe pra cá. Nem sempre o vento tem direção. E é bom saber que muitas vezes a vida tem planos muito melhores pra gente.

O problema é que a gente segue idealizando. Fico pensando em tudo que eu preciso pra ser feliz. Não adianta, me imagino daqui uns anos cumprindo minha meta comigo mesma. Nesse caso não falo de um amor, mas de uma grande e confortável banheira.

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