Amor

AUTOBOICOTE

Como é difícil controlar esse pensamento perturbador de que sempre vai dar errado. Eu quero muito ser feliz, mas esbarro na minha quase míope certeza de que não mereço, que não posso, que tem algo errado comigo. 

Na verdade tem tudo errado.

Sempre que um cara se aproxima eu já acho estranho ele se interessar. Ah sei lá, como assim mal me conhece e já quer ficar comigo? Ele não sabe que acordo todos os dias religiosamente às 7h15 pra tomar meu café, inclusive aos domingos, mesmo que seja pra voltar a dormir. Eu amo animais e tenho 3 cachorros em casa. E se ele não gostar? Minha família é complicada, minha mãe então… quando conhecê-lo vai fazer mil perguntas sobre as intenções dele com a filhinha caçula, blá, blá, blá.

Mãe, já tenho 32.

E os meus dois irmãos mais velhos são daqueles chatos, sabe? Ficam fazendo piadas sem graça só pra constranger a pessoa. NÃO VAI DAR CERTO!

Ele não sabe que não uso salto alto, que amo pôr do sol, que tenho só uma tatuagem com um significado específico na nuca.

Tá bom, sei que pareço uma louca, mas aí a gente começa a sair e no segundo encontro o cara já não pode porque precisa ficar até mais tarde no escritório. Sabia, é sempre esse tipo de desculpinha que acha que me engana. Ou eu que estou me enganando?

Tudo isso às vezes me remete a um medo frágil de reviver minha última relação. Daquele cara que só pensava nele enquanto eu praticamente abandonei minha vida, meus livros e até minha mania de cuidar de plantas. Ele achava uma bobagem só porque elas morriam rápido. O egoísmo dele me sufocou até a morte da relação. Não havia mais espaço pra nós. Então, tive que sair.

O problema é que depois disso você pega toda a responsabilidade do outro e transforma em culpa sua. Não entende como deixou chegar nessa situação, de tanto descaso consigo próprio. Como pude me afastar tanto de mim, permitir que alguém me usasse enquanto não havia nada melhor por aí, subjugando meus sentimentos em uma desfaçatez capaz de fazer eu me sentir como um tapete velho sem serventia.

Voltei pra casa dos meus pais e cada vez que alguém se interessa eu sinto vergonha. Fui tão corrompida emocionalmente que não consigo enxergar minhas qualidades. Como alguém irá me perceber assim?

Bom, depois desse relato que só o espelho conhece, vou me arrumar e encontrar esse cara legal. Espero que ele consiga derrubar toda essa armadura em volta de mim e atingir meu coração. Eu quero muito, mas o toque dele ainda arde e não de um jeito gostoso. É como se eu estivesse queimada do sol e reagisse a cada investida. São cicatrizes que precisam ser curadas e eu sei que o antídoto pra tudo isso é o amor. 

O primeiro passo já foi dado, preciso dar um voto de confiança pra mim, além de me abrir para o novo, entender que nenhuma relação é igual a outra. Eu sou a mesma, mas também modificada pelas duras lições do tempo.