Sexo, Amor & Crônicas

AMOR INVENTADO

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Você sempre disse que me inventou. Tem toda razão. Eu não existo mesmo. E quando digo “eu”, me refiro à pessoa que você conheceu ou melhor, que você quis conhecer. Não que eu tenha interpretado algum personagem de uma peça shakespeariana, ou um galã convincente de novela das nove. Fui justamente aquele cara que você materializou. Você criou em mim, simplesmente, aquilo que lhe falta. Aquela ilusão perdida em desencontros com caras cheios de vazios na alma, assim como estava a sua. Mostrei aquele sorriso que você procura em tantas bocas diariamente. Só que esse foi teu crime, minha ré. Não há como disfarçar o sorriso dos olhos e até isso você quis patentear como obra sua.

A partir dali, você leu mais do que as consoantes sinuosas da minha dança, daquela ginga engraçada e divertida que te fez gargalhar como uma criança admirando um brinquedo novo. E foi exatamente isso que eu fui pra você: um brinquedo, sob teu controle remoto que você comandava quando bem entendia. Ligava um dispositivo e eu te dava carícias mecânicas, te amava com intensidade linear, te fazia dormir como uma caixinha de música inteligente, tão letrada como as cartas que nunca escrevi. Você me mandou ser perfeito e eu obedeci. E depois de tudo, quando não quis mais acreditar na própria invenção, apertou o botão de “desligue”.

Enquanto eu fiz parte da tua criação, entrei na tua casa; no teu carpete; na tua cama king size pra traduzir o tamanho da ausência; no teu reduto de independência carente ou de carência independente. Teu lar exalava um cheiro de “sou lógica, racional, organizada e não preciso de ninguém”. Quando entrei detectei um gosto de “tudo que eu quero é que alguém desarrume essa minha sala de estar”.

Ainda lembro das nossas conversas na madrugada, deitados num berço de paz, trocando vogais de insegurança. O barulho da TV te incomodava. A mim, perturbavam teus travesseiros em excesso, teu falso pudor e teu medo de fechar os olhos para não enxergar uma luz de vulnerabilidade. O problema todo estava debaixo das pálpebras. A minha boca era mais sincera e falava com todas as verdades que a minha saliva poderia revelar. Teu olhar me entregava pouco de ti, dos teus segredos.

Você me criou, mas esqueceu de se inventar pra mim. Nossos seres imaginários não combinaram e você ficou com a ilusão daquilo que nunca te dei. Eu, com a realidade do que você não foi.

Amor inventado tem disso: um prazo de validade para ser feliz.

Um comentário no “AMOR INVENTADO

  1. Incrível…….amigo querido…sou tua fã e não deixo de ler tuas crônicas nunca!!!! Parabéns…são ótimas!!! Estava faltando isso na Internet;..estava faltando essa realidade, essa clareza, e essa autetincidade de sentimentos, em uma era em que todos COMPARTILHAM, COPIAM, COLAM….
    Parabéns Chico!!!!

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