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A crônica do amor impossível

Ela tem tudo que eu gosto. A pele, o cheiro, o cabelo e até aquele sorriso envergonhado quando a chamo de linda. Personalidade forte, doce quando quer colo. Não demonstra tudo que sente, mas ama com os olhos. Se uma relação fosse feita apenas de amor, seríamos muito felizes. Mas isso é impossível.

Incrível o que eu sinto quando estamos juntos. Mundo gira, tempo para, coração acelera. Se a felicidade é um instante que a gente não quer que acabe, eu desejaria que minha vida naquele momento não tivesse fim. Que nossos momentos fossem eternizados para que eu sobrevivesse apenas com aquela sensação de bem estar e de uma paz infinita ao lado dela. Mas uma relação é muito mais do que isso.

Nas conversas a gente se entende, tem os mesmos conceitos, nossa risada é afinada e nosso choro compartilhado. Nossas línguas falam o mesmo idioma. Como pode a gente ficar horas falando sobre cinema, ou artimanhas de sedução que usávamos com outras pessoas? Lições que nos fizeram chegar até aqui, ao encontro com esse sentimento tão nobre. Nesse momento temos a certeza de que não trocamos olhares por acaso, que o universo conspirou e a gente obedeceu. Seria uma injustiça divina a gente não se amar.

O único problema desse amor é que ele não é estável. Está suspenso, parece cair, não está seguro. Preso na expectativa de ser vivido mais intensamente. É um sentimento envolto no medo de perder, de não mais sentir algo tão bom, de não ter mais aquela pele para tocar, aquele beijo para viver. E incrivelmente é tudo isso que o mantém vivo.

Alguns amores superam todos os obstáculos possíveis, criam um alicerce poderoso para a continuação daquela história iniciada na paixão, mas que virou amor pela resistência do tempo. Infelizmente, nem todos os amantes tem essa sorte. O amor ama por si só, mas para virar uma relação, precisa ser correspondido. Amor sozinho não consuma, é platônico. É impossível!

Tudo parece encaixar, mas tal qual um quebra-cabeça (ou quebra-coração), uma peça parece faltar. Não tem fim. São muitas afinidades, mas se há uma divergência que afaste muito o casal, ela será definitiva. Um relacionamento precisa de uma simbiose perfeita entre sentimentos, atitudes e perseverança.

Amor não sentimos, apenas. Amor se enfrenta, com todas as adversidades nele contidas. Família dele, dela, amigos, horários diferentes, compromissos, intrigas e até nossos olhares que não conseguem se cruzar. Rotina que afasta a retina. Amor não precisa de tato para ser vivido, mas precisa do abraço pra ser consumado. Existe amor na distância. Namoro não.

Nesse mar de dúvidas, entre viver uma história pela metade e insistir na busca pela última peça, muitas vezes restará a lembrança daqueles momentos de felicidade. Momentos que compensavam todas as dificuldades, tudo que impedia aquela relação vingar. O curioso é que justamente essas agruras mantinham aquela necessidade por ver e superar tudo isso com um beijo, proporcionando uma pausa no tempo.

Tentativas, insistências, desistências, até voltar por não conseguir ficar longe. Tudo atrapalha, tudo aproxima. Distância grande, sentimento enorme, problemas gigantes e um amor maior ainda. É bonito nos filmes, na poesia, mas a realidade sem um café passado pela manhã a dois não tem graça nenhuma. A virtualidade ainda não reproduz cheiros e toques. Estando longe não sentimos o gosto do outro, não enxergamos as reações.

Não dá pra viver um amor sem poder olhar no olho para perceber se ainda existe sentimento. Um amor de verdade é muito grande para não ser dividido com o mundo. Uma relação escondida reserva ingredientes de sedução no período da paixão. Quando ela precisa evoluir, amadurecer, necessita da convenção social para sobreviver. Status de facebook, almoço em família, fotos no instagram e declarações diárias. O amor vive de publicidade também, demonstrações afetivas causam segurança ao casal.

Se não for possível seguir adiante, não será consumado, mas ainda assim será amor. Sempre será amor, mesmo que impossível.

Impossível de viver, jamais de sentir.

Vídeo:

4 comentários no “A crônica do amor impossível

  1. Eu estava indo muito bem na leitura , ate quando li “Impossível de viver, jamais de sentir.” Fui tomado de um profundo silencio que anda me ensurdecendo os sentidos , seguido de um suspiro que inuldou meus pulmões .É Chico ; o aspirar aqui foi lento como se sentisse um perfume na madrugada trazido de longe pelo vento e degustado com as narinas da alma a vontade de rete-lo dentro de mim quase me fez perder os sentidos .mas foi o expirar que mais doeu , “não queria que se fosse” não quero ” . Sou reù confesso nesta sua crônica ,impedido de viver e condenado a jamais deixar de sentir este amor impossivel

  2. Ola Chico! Já faz algum tempo hein? Rs gostaria que você falasse do proibido. Porque ele é mais gostoso? Inebriante? As pessoas sentem um fascínio por essa forma de amar. Confesso que ate eu fico embriaga quando me vejo envolta em uma situação como essa… Beijos e abraços.

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