Sexo, Amor & Crônicas

A CONVERSA

a conversa

Tudo começa no olhar. Aquela faísca que começa nas pupilas e atinge o corpo inteiro. Fiquei tentando imaginar o que estava por detrás daquelas jabuticabas na face. Hipnose consciente. Depois vem uma afinidade inexplicável. Coincidências estranhas, vontades em comum, outras nem tanto. E até no que não combinamos eu finjo gostar. Sei lá, aquelas primeiras horas me fizeram sentir estranho. Como se a gente se conhecesse há mais tempo. Temos até amizades conhecidas que eu jamais esperava. No primeiro contato, já havíamos falado sobre casamento, política internacional, futebol, novelas e sexo. Nas pausas de silêncio, demos um sorriso esquisito pro outro, como se fosse um consentimento de que nossas sensações eram gêmeas naquela hora.

A conversa do amor é o passaporte carimbado para qualquer enlace. Pode ser que a partir dali não haja outro encontro, mas de alguma forma, aquela pessoa ficará marcada na sua vida. É como um dos tantos belíssimos lances de Pelé em que a bola não entrou. Chega a ser tão bonito quanto um gol, apenas pela jogada. Nem precisa consumar o ato, de tão interessante que foi a história, o envolvimento, a expectativa.

Depois dessa conversa você chega em casa e precisa contar isso pra alguém. Manda uma mensagem no whats às 4 da manhã, procura a amiga no messenger do facebook, deixa toda a sua angústia em alguma DM do twitter, e no desespero – sem resposta – liga e até choraminga na caixa postal dela, coisa que você nunca faz. É como se faltasse o ar, o coração palpita. Nem existe paixão ainda, mas os sintomas são os mesmos. É como um princípio de gripe. Cabe a você tomar a medicação ou deixar o tempo curar. Nesse caso, o remédio é não procurar mais aquela pessoa, mas é mais fácil morrer do que isso acontecer.

Todo mundo sabe quando acontece a tal conversa. Ela tira a gente do estado normal de percepção. Rimos de coisas ridículas, falamos coisas que não costumamos comentar por aí. Revelamos nossos desejos mais íntimos e o detalhe é que isso ocorre com alguém semi-desconhecido. Logo, o cérebro pergunta: “Por que estou fazendo isso?” Eis que o coração responde: “Deixa comigo”. Esse é o problema, coração tomando decisões nem sempre é uma boa. Mas como sempre, a gente confia nele. E a “conversa” parece nos mostrar que ele está certo, vale a pena investir. Não é sempre que eu fico horas falando sobre as coisas mais absurdas com alguém que eu não sei nem se é destro ou canhoto.

A chamada conversa estimula, mas ao mesmo tempo você quer finalizá-la só para dividir com alguém. Se pudesse, você congelaria o tempo e faria aquela ligação: “Olha só, você nem sabe, conheci o amor da minha vida. Não, tô falando sério, é a pessoa perfeita, tem tudo a ver comigo. Cara, não sei explicar, depois te conto tudo. Não, nem ficamos e isso é o mais espetacular”. Desliga, descongela e continua papeando, alucinadamente, rindo até quando ela diz que tá com sede, ou seja fazendo um completo papel de babaca e nem se importando.

Ter a conversa não significa sucesso numa relação posterior. Ela nem sempre acontece com alguém que você vai ter algo sólido, construir a sua história, apesar de isso parecer muito claro quando você vivencia esse momento. Ela acontece entre duas pessoas muito ligadas energeticamente, permite o encantamento inicial, fase mais gostosa da solteirice. Pode ser que vingue, pode ser que fique apenas um magnetismo. Pode ser que role muito sexo, pode ser que nem um beijo. O fato é que ela modifica a forma da gente pensar. Nos faz acreditar que é possível encontrar alguém do jeitinho que você sonhou. Mesmo que esse alguém nunca vá ficar com você. Na realidade, nossas fantasias com pessoas perfeitas nunca dão certo. E sabe por quê? Porque a gente não quer. Procuramos alguém torto mesmo.

A felicidade não tem lógica e combinar gostos nunca foi sinônimo de afinidade. A conversa exige perfeição, mas a convivência não.

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